eu passei a adolescência inteira escrevendo. muito mais do que agora. eram cadernos e cadernos de mimimi descontrolado e considerações pedantes a respeito de nada, e outros tantos que hoje acho extremamente perturbadores e funcionavam como diários do futuro, onde eu escrevia como se fosse 10, 15 anos mais velha. 

eu não vou nem ousar entrar na análise do teor de umbiguismo de uma pessoa que escreve fanfiction de si própria porque não é o que parece. ao contrário do que seria de se esperar, minhas projeções não envolviam dinheiro, glamour, viagens, um emprego incrível, homens de tanguinha me abanando com leques de penas de pavão. não. em todas as minhas versões do futuro eu estava sempre meio (ou muito) perdida, fodida, sozinha. parecia estar sempre passando por algum tipo de transição, embora não ficasse muito claro o que havia motivado aquilo. e quando a história se desenvolvia ao ponto de se aproximar de uma solução, um desfecho, um ponto estável, eu escondia aquele caderno, comprava outro e recomeçava lá daquele início nebuloso onde tinha todas as oportunidades, e ao mesmo tempo sabia que não tinha nenhuma, porque ia parar antes de chegar ao final.

de uns tempos pra cá tenho pensado em como isso compromete toda e qualquer ilusão de segurança que eu possa desenvolver. como não é possível esperar que alguém me conheça quando eu mesma não tenho pistas. e como é estranho que desde sempre eu tivesse essa dificuldade para entender o que estou fazendo ou para onde estou indo, e ao mesmo tempo já soubesse com tanta clareza que o foco jamais seria o destino, e sim o caminho - avulso, truncado, caótico.

dos temas para a terapia que jamais farei.