eu tenho essa sensação de não-pertencimento que parece se agravar em dias de chuva. talvez porque uma boa parte das viagens que já fiz na vida aconteceram em dias chuvosos, não sei bem. a questão é que não posso ver uma nuvem preta e já começo a questionar cada milímetro da minha vida. o que deixa dias como o de hoje especialmente trabalhosos.

eu costumava achar que quanto mais longe fosse mais longe ia querer ir, sempre, e existia algo tremendamente confortador em passar dias incomunicável andando de lá para cá com uma mochila nas costas e crostas de lama seca na barra da calça. tudo parecia tão distante, e tão relativo, e a vida de repente ficava muito ordenada quando minha única preocupação era matar aranhas ou cogitar se minha barraca sera fulminada por um raio enquanto eu dormia. e mesmo isso não parecia importante.

mas agora todos os meus dias obedecem a esquemas burocráticos desprovidos de sentido e me pergunto onde foi que tudo aquilo se escondeu. minha disposição, os sacos de dormir com insetos misteriosos dentro, as lanchonetes de beira de estrada com placas descascadas oferecendo carne de jacaré.

acho que o tempo passou rápido demais.