eu não sei dizer quando foi que notei que estava me tornando uma pessoa triste demais. acho que a gente nunca sabe exatamente. lembro que algumas semanas atrás estava procurando um papel e encontrei todas aquelas apostilas de anatomia cuidadosamente coloridas e cheias de anotações nas margens, e pensei na minha empolgação como algo totalmente alheio à minha pessoa, um comportamento que fazia parte de algum passado muito distante - quando na verdade apenas uns poucos meses me separavam daquilo.

houve outros sinais. parei de ouvir música e cada filme assistido se convertia em uma espécie de suplício particular, dividido em pedacinhos entrecortados por ataques de ansiedade. as coisas interrompidas, jogadas pelos cantos. os emails que nunca respondi. o caderninho que me segue por toda a parte, onde escrevo minhas listas e anoto o que quero fazer, foi se esvaziando de planos. no dia 10 de janeiro deixei um comentário para mim mesma: você está um pouco surtada, querida. mas isso passa. eu ainda estava tentando levar meu desmazelo na brincadeira. mas não passou. pelo contrário. tudo foi perdendo a cor imperceptivelmente, me encolhi, fiquei medrosa e perdi a vontade. eu me fechei na minha frustração, tanta decepção junta. congelei num ponto em que comecei a questionar minha capacidade, minha inteligência, minhas referências. cada defeito meu foi amplificado. e nesse momento perdi todas as chances. perdi o prumo, perdi meus planos, fiquei insegura e infeliz. e deu no que deu. 

vai levar tempo para consertar essa bagunça. para recolocar minha cabeça em ordem. desaprendi a priorizar porque a prioridade era me encaixar, pertencer, e agora nem mesmo sei como cheguei a esse ponto. afinal, o que é que eu estava tentando tão desesperadamente?

a minha sensação é a mesma de quando temos um pesadelo sem sentido e pela manhã não entendemos por que sentimos medo de algo tão absurdo.

a diferença é que ainda não estou muito certa de ter acordado.

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